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17. ago., 2018

Tem-se escrito muito sobre o sobre o século vinte, mas quanto a mim este libro de Franz-Olivier Giesbert é dos mais cativantes e bem merece um lugar nos novos clássicos. A personagem principal é uma mulher, Rose que apesar dos seus cento e cinco anos trás na mala uma pistola e ainda não perdeu nem o sentido de humor nem o interesse pelo sexo. Cozinheira e proprietária de um afamado restaurante em Marselha a sua filosofia de vida é que a felicidade é fruto da vingança. Ao escrever as suas memórias transporta-nos até Trebisonda no início do século quando começa o genocídio do povo arménio. A sua força de espirito, inteligência e aptidões para a culinária bem como a sua lista de inimigos que escreve como se fosse a lista das compras ajudam-na a sobreviver aos horrores do nazismo e aos sonhos delirantes do maoísmo. Com um estilo satírico e um bom trabalho de pesquisa histórica Giesbert criou um romance que não vai poder parar de ler! Infelizmente ainda não está disponível em lingua portuguesa, pelo que terá que optar por qualquer das edições em espanhol, francês ou inglês, mas vale bem o esforço!

31. jul., 2018

 

Como quase toda a gente gosto de viajar e se possível misturar-me com os locais, no entanto nem sempre reúno as condições necessárias para o fazer e convenhamos, é uma canseira! Muitas vezes a solução é a leitura. Desta vez viajei à Cuba dos anos quarenta com “El Encanto” de Susana López Rubio. Os meus conhecimentos do país ficavam pelo que ouvira na televisão ou as típicas fotografias das agências de turismo. Clima tropical, conflitos políticos que tinham dado origem a embargos económicos e a capital repleta de edifícios decadentes e com um parque automóvel envelhecido. A autora transportou-me até à época dourada da Havana quando a cidade era visitada habitualmente por artistas de cinema como Ava Gardner, Frank Sinatra, Tyrone Powell ou escritores como Hemingway e até mesmo cientistas como Einstein. A história conta as aventuras de Patrício, um jovem espanhol que emigra para Cuba deixando a sua aldeia natal nas Asturias, um país que viveu uma guerra civil e que acaba por se apaixonar por Glória uma bonita mulher casada com um dos gângsteres que controlam a cidade. Um amor proibido que se desenrola ao longo dos anos, dando-nos uma imagem do ambiente das ruas e mudanças de regime tendo como pano de fundo o centro comercial “El Encanto”, o lugar onde todos os sonhos e até os mais pequenos desejos podiam ser satisfeitos. 

 

21. jul., 2018

Há semanas cruzei-me com o Tom Hanks no “El Corte Inglês” e ignorei-o! Já lá vai o tempo em que me deixava levar por essas celebridades. É certo que já demos algumas gargalhadas juntos e outras vezes conseguiu emocionar-me mas não falemos nisso. Agora o homem é escritor, era já só o que faltava! A edição em espanhol, não é propriamente apelativa, capa vermelha, letras pretas e brancas e uma máquina de escrever desenhada... Olhei de relance e ali ficou o “homem” rodeado de autores. A coisa teria ficado assim não fosse que pouco depois me ofereceram o livro. Um livro de contos ou pequenas histórias? Ok, até pode ser interessante. As críticas são boas, mas convenhamos iria consentir que escrevessem uma opinião má na sua contracapa? Para evitar que acabasse esquecido debaixo de um monte de livros agarrei nele e comecei a lê-lo muito pouco convencido. À medida que lia a minha opinião começou a mudar. Afinal o homem até tem jeito. Diferentes histórias algumas divertidas outras mais complexas trouxeram-me à memória as revistas Selecções do Reader’s Digest  dos anos cinquenta e sessenta que se acumulavam num pequeno aparador na sala de estar.  Folheava-as, lia alguns artigos mas gostava especialmente dos relatos que tinham no final. Era o tipo de leitura ideal antes de dormir. Mas o Tom não me trás apenas essas recordações. Em todas as histórias há alguma referência a máquinas de escrever antigas, desde as velhinhas aos modelos eléctricos, é que o homem colecciona-as. O meu pai ensinou-me a escrever num modelo antigo que não posso precisar, uma máquina de metal, preta com estojo de madeira forrado com uma espécie de pele sintética. Pelo caminho perdeu-se a máquina de escrever dos meus avós que devia ser um modelo comercial enorme, com dois teclados completos, um para as maiúsculas e outro para as minúsculas. E coincidencia ou não nos ultimos tempos tenho sentido saudades da minha Olivetti, acreditam? Mas como estava a dizer, passei estes dias com o Tom Hanks e gostei muito!

"Papéis diferentes, algumas histórias" - Tom Hanks

15. jul., 2018

Não me considero um leitor muito exigente, mas poucas vezes aparece um livro que logo nas primeiras páginas me interessa de tal forma que não paro até terminar de lê-lo. Aconteceu com “Niebla en Tánger”  de Cristina López Barrio, finalista do Prémio  Planeta 2017.  Movida pela curiosidade Flora Gascón decide ler o livro que o seu amante de uma noite tinha na mesa-de-cabeceira do quarto de hotel. O facto do nome da personagem  e a aparencia fisica desse homem coincidirem leva-a a pensar que ele possa ser o homem que desapareceu em Tanger há sessenta e quatro anos! Deixa Madrid e parte para essa cidade à procura da autora e respostas a muitas perguntas. Um livro onde duas histórias no presente e passado se cruzam tendo como cenário numa cidade mágica. Quanto a mim uma leitura recomendada, infelizmente ainda não disponível em português.

23. jun., 2018

As casas velhas têm o seu encanto, mas também dão muitas arrelias e dores de cabeça! Quem não se lembra daquela divertida comédia de 1986 com Tom Hanks e Shilley Long, "Um dia a casa vem abaixo" ou uma outra de 1948 com Cary Grant, "Mr Blanding builds his dream house"?Conheço perfeitamente essa sensação e não me custa nada imaginar pelo que estão a passar Anna e Tobias na sua propriedade no sul de França. "Uma cozinha à prova de ratos" é um daqueles livros em que não repararia sequer! Saira Shah, jornalista, e diretora de documentários estreia-se com este romance. A história começa com o nascimento de Freya uma bébé com gravíssimos problemas cerebrais. Qualquer pessoa ficaria arrasada, mas os seus pais decidem avançar com o projeto de viver no Languedoc francês. Numa casa praticamente em ruínas em que Anna luta desesperadamente para controlar uma praga de ratos e refugia-se na culinária para fugir da realidade enquanto Tobias, compositor, o faz na musica. Cada um à sua maneira tenta enfrentar a realidade enquanto a pequena Freya luta para sobreviver. Uma história de superação que se mistura com a de outras personagens excêntricas tornando difícil senão impossível interromper a leitura. Infelizmente este livro não foi editado em Portugal, a edição que encontrei foi em português do Brasil, na Fnac, sendo uma alternativa a edição em espanhol.